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sábado, 21 de março de 2015

Policiais e professores: há espaço para a (in)diferença?

A realidade social e os desafios do tempo presente têm demonstrado que há muito mais semelhanças entre asprofissões de professor e policial que poderíamos imaginar num primeiro momento. 

As semelhanças, no entanto, estão longe de se restringir ao baixo padrão de remuneração vigente no país, aos riscosque envolvem ambos os ofícios – algo que se tornou mais evidente para os postulantes ao magistério nas últimasdécadas – e ao reduzido reconhecimento social reservado a essas funções, apesar do seu caráter essencial. Pordiversas razões, é difícil imaginar sociedades modernas que possam existir por muito tempo sem policiais eprofessores.

No campo das semelhanças, não apenas esses profissionais possuem geralmente uma origem social comum, sofremcom ameaças, vivem a experiência de se doarem a tarefas importantes e desprestigiadas, entre outras, mascostumam responder de forma parecida às cobranças de suas áreas e a tantos outros dilemas de uma sociedade comoa nossa. 

Se de um lado o Brasil figura há bastante tempo em baixas posições nos testes nacionais e internacionais que aferema qualidade do ensino, no campo da segurança, inversamente, o país ocupa os primeiros lugares, superando paísesque enfrentam conflitos armados. Recentemente, o Brasil ficou na 38ª posição dentre 44 países onde o teste Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) foi aplicado para medir a capacidade dos alunos em raciocínio,segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Em avaliação anterior sobre leitura,ficou na posição 55ª dentre 65 países. Já de acordo com o Mapa da Violência 2014, o país alcançou o sétimo lugar nomundo em homicídios de jovens de 15 a 24 anos. 

São sinais evidentes de uma crise ampla e do fracasso do país em duas áreas estratégicas. Não é difícil perceber oquanto o malogro da educação em vários níveis contribui para tornar próspera a violência, especialmente entre osmais jovens, comprometendo seriamente o desenvolvimento do país.

Ainda no campo das semelhanças, são muito comuns as queixas desses profissionais sobre a falta de apoio do restanteda sociedade e do quanto as omissões e posturas dúbias da população e das autoridades têm contribuído paraaprofundar a crise nas suas respectivas áreas. Professores e policiais comportam-se de forma parecida quando setrata de explicar o fracasso da educação e do enfrentamento do crime e da violência. 

Para os primeiros, a família não estabelece limites para os filhos, não os orienta para a valorização da educação,omite-se em seu acompanhamento e cobra excessivamente resultados da escola. Já os policiais, grosso modo,afirmam que não tem o apoio da população e que a violência é um elemento difuso e estrutural da sociedadebrasileira e que por isso pouco podem fazer além de lidar com a falta de interesse da classe política, com ainadequação da legislação e de setores que segundo eles militam, diretamente ou não, em favor do“enfraquecimento” do trabalho policial. 

Em ambos os discursos, a “crise da família”, a formação autoritária e o comportamento violento dos brasileiros estãona raiz do problema, não cabendo apenas a eles resolver um problema que é de todos. Um argumento à primeiravista inquestionável e sem dúvida coerente frente o abismo que se criou entre esses segmentos e o restante dasociedade. No entanto, destaca-se na base desse pensamento mais uma semelhança: o caráter centralizador ou o mal do “exclusivismo” que conduz esses profissionais para o sofrimento e para o fracasso, não necessariamente nessaordem. Há alguns dias uma colega me falou sobre a sua disposição em não ir mais para as reuniões de pais na escolaonde tem o seu filho matriculado. A razão? O que poderia ser um momento de reflexão e debate sobre as escolhasda escola, sobre conteúdos, métodos e recursos de ensino se apresenta como mero espaço para comunicar ações. Háforma pior para encorajar a participação que organizar reuniões onde praticamente apenas a “escola” tem voz e decide?

Ainda que existam vozes dissonantes, grande parte dos professores e dos policiais aprecia ver-se como “super-heróis”ou “missionários” e por isso considera que apenas eles podem enfrentar a complexidade dos desafios desses doiscampos. Em geral, diante do previsível fracasso em atenderem a responsabilidades descomunais, rebelam-se contraos críticos e com dificuldade reconhecem suas limitações. 

Ou seja, ao mesmo tempo em que destacam que toda a sociedade contribui para o fracasso da escola e para oaumento do crime e da violência, é muito comum também ouvir desses mesmos profissionais que apenas “os dedentro”, aqueles que estão no “chão da sala” ou que estão “na rua enfrentando os bandidos” estariam autorizados afalar com propriedade sobre as suas áreas e respectivos desafios. Responsabilizando-se por “quase tudo”, terminampor fazer “quase nada” ou tornar o grande esforço empreendido em resultados poucos expressivos. Como não sofrercom uma autoridade que se esvazia por falta de bons resultados, liderança e reconhecimento?

Neste sentido, é importante apontar uma diferença fundamental diante de tantas semelhanças. Historicamente, afunção policial goza de pouco prestígio. Dentre as razões apontadas por estudiosos como Egon Bittner (2003), estão oenvolvimento com conflitos armados, o apoio a regimes autoritários, além do fato de os policiais terem que lidar comaquilo que definimos socialmente como “indesejável”, “sujo” e “perigoso”, ou seja, o que deve ser apartado doconvívio social. 

Se os policiais sofrem por terem que manter relação próxima com o crime e de terem de levar o “indesejável” paralonge dos olhos da sociedade, existe a expectativa de que os professores tragam o indesejável para perto por meiodo questionamento do mundo; algo que fere posições cômodas e que interfere sobremaneira em visões de mundocristalizadas. Esse compromisso, que pressupõe comportamento ético, formação continuada e distribuição deresponsabilidades quase sempre se choca com a tendência à centralização e com o comportamento resistente acríticas e a outras formas de avaliação e controle. 

Nada mais prejudicial à construção de soluções equilibradas para a educação e para a segurança que a existência deconsensos forçados que nos levam a fugir dos conflitos e nos encerram na posição de expectadores falsamenteprotegidos do confronto com as nossas próprias falhas e com a diferença encarnada no outro. Assim como areprodução tecnicista que deixa de lado a crítica, a aposta na violência representa a fuga do conflito, pois se nega aodebate a partir de soluções aparentemente fáceis como o aniquilamento ou a morte do que é diferente ouindesejável. 

Não raramente, em virtude do grande poder e responsabilidade associados a essas profissões, professores e policiaisencaram a cobrança por resultados e a responsabilização de colegas por falhas como um ataque frontal a suaautoimagem. Eles se reconhecem como aqueles que por falta de estrutura e recursos também poderiam falhar, alémda prevalência de um pensamento “romântico” que toma a simples participação nessas instituições como algosuficiente para demonstrar compromisso com a sociedade e com o ofício escolhido. Embora minoria, os mausprofissionais possuem um forte poder de destruição, engajam-se nas estruturas e as usam como poucos. Sabemtambém mobilizar emoções e paralisar reformas sob a ideia de que o ataque a eles direcionado representa um“ataque a todos”.

Tal comportamento fica claro, por exemplo, nas reações negativas após a divulgação, na última semana, do Relatório da Anistia Internacional sobre as polícias no Brasil e outras pesquisas que apontam a permanência da prática detortura e o aumento de mortes de suspeitos em confrontos com policiais. No caso dos professores, a pauta de suasreivindicações quase sempre fica restrita à busca por melhoria dos salários e das condições de ensino. Em ambos,preservam-se as estruturas e os protocolos de atuação, pouco transparentes e que dificultam reconhecer equívocose omissões em nome da preservação desses poucos.

Mudar, portanto, as estruturas e os currículos que orientam essas instituições através de padrões ultrapassados deatuação é um desafio a ser enfrentado nessas áreas, sobretudo em um contexto onde a experiência comunitária seesvazia e abre-se cada vez mais espaço para o individualismo e para a perda de sentido da escola e da funçãopolicial. A preservação de uma ordem representada por estruturas obsoletas significa na prática um espaço abertotanto para a permanência do atraso na educação quanto para o avanço do crime e da violência. 

Desse modo, ter de forma clara a necessidade de valorizar o potencial pedagógico dessas profissões passa pela apostano desenvolvimento da liderança, na autoridade sem autoritarismo como elementos essenciais para tirar professorese policiais do atual isolamento e favorecer a participação da sociedade na construção de caminhos que privilegiem odiálogo e a transparência. Os nossos desastrosos índices de educação e de violência provam que o isolamento e abriga por monopólio têm se mostrado inócuas para a transformação desses cenários. São, antes de tudo, duas dasprincipais razões para o fracasso que vivenciamos. 

Marcos Santana de Souza
Professor do Departamento de Ciências Sociais

Fonte: Universidade Federal de Sergipe

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